quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

 O cidadão no espaço político 

Entrei no Livre no início de 2022 porque inserindo-me ideologicamente à esquerda, estava também convicto que os partidos devem ser um meio de representação efetiva do povo e portanto feitos pela população para a população. O Livre era essa esperança de partido aberto à sociedade com uma organização mais horizontal onde todos teriam voz.  

Escrevo este texto passado 2 anos com alguma frustração e constrangimento por essa ideia ter sido em parte defraudada. Talvez seja utópico construir um partido verdadeiramente aberto, mas gostava de falar sobre a minha experiência até aqui: 

Desde o primeiro plenário do meu núcleo territorial fiquei com uma impressão que me inquietou até hoje. Pensava que a missão dos núcleos era aproximarem o partido das pessoas e serem esses elementos de ligação com as angústias e problemas do cidadão comum, motivando o debate e criando espaço político junto da comunidade. Não só para levar a política às pessoas, mas sobretudo para trazer mais das pessoas à política.  

No entanto, encontrei um partido de elites intelectuais e os núcleos pareceram-me meros meios de promoção pessoal para quem ambicionava cargos partidários superiores. As atividades junto da comunidade foram escassas e feitas para dentro da bolha, parecendo existir mais empenho em publicitar o que se fez do que em fazer. 

Por esse motivo fiz várias propostas no sentido de aproximar os núcleos da população e apresentei-as em vários órgãos: no núcleo territorial, no círculo temático liberdade, ao GC e por fim numa moção no último congresso da Costa da Caparica. 

Estas propostas podiam ser inviáveis, irrealistas ou simplesmente parvas. O que me incomodou não foi não terem avançado, mas sim nunca as ter sequer conseguido discutir. Será que fui eu que não consegui gerar entusiasmo suficiente ou que o partido em geral não tem grande interesse neste tema?  

Penso por outro lado que se o partido internamente não se revelou ser tão aberto como se esperaria, qual é a probabilidade de conseguir estar abertos à sociedade que nos rodeia? E então em que é que nos diferenciamos de outros partidos? 

Eu tenho 62 anos, tenho 12°ano, sempre trabalhei como vendedor de peixe fresco e moro numa aldeia no interior. Não me interessa seguir nenhuma carreira política, nem me interessam quaisquer cargos partidários.  Estou na política meramente pela ideia de criar uma sociedade mais justa e solidária e pela fé na construção de uma democracia que seja feita por todos.  

Ora se neste partido acabo por constatar que a maioria da atividade é uma luta patética por cargos e que o verdadeiro debate se faz num grupo fechado, o que é que pessoas como eu estão a fazer aqui? Não parece haver trabalho político concreto em que possa ser útil, quando proponho novas atividades sou ignorado, quando crítico formas de organização as pessoas sentem-se individualmente ameaçadas. Não consigo suscitar debate efetivo, dialogar sobre ideias ou criar espaços de ação.  É um problema meu ou é um problema nosso? 

A verdade é que já não digo nada quando no café da minha aldeia ouço a tal frase ‘os políticos são todos iguais, andam todos ao mesmo’. Passo a ficar calado. A minha experiência no partido tem vindo a ser uma forma de depressa perder a inocência da luta progressista. 

Não vim para o partido à procura de amigos, embora já tenha feito alguns e bons e só por isso já valeu a pena, mas também não procuro fazer inimigos (pelo menos intencionalmente), pelo que esta publicação não pretende ofender ou denegrir ninguém. Esta partilha vem da profunda frustração que sinto e procura apenas suscitar reflexão e debate. 


Saudações LIVRE's


 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

IVG, art 142º código penal


Levar este tema a debate na assembleia da república, com uma maioria de extrema direita (psd, cds, il e chega), sem sequer ter a garantia do PS votar a favor ?? Para quê?? Porquê ??

Foi um tema que saiu de algum debate, nos círculos temáticos?

Como foi decidido lançar este tema?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025




O cidadão no espaço político (prelúdio)



Entrei no Livre, no início de 2022. Pretendia experienciar a vida interna de um partido político. Convicto que os partidos devem estar ao serviço do povo, serem seus representantes efetivos, com o foco no bem comum, referenciado nas Declarações Políticas que os definem. Enfim! era uma convicção.

Logo no primeiro plenário do meu núcleo territorial (Leiria), feito num café(!?) fiquei com a impressão que faltava tudo neste pequeno partido. Afirmei-o, logo nesse dia. Ambicionava uma alteração na forma dos núcleos trabalharem. Um novo ‘dever’, que os núcleos teriam com o partido: a comunicação direta com a comunidade. No mesmo patamar, os grandes desígnios de estado, como a saúde, habitação, educação, cultura, … seriam discutidos nos círculos temáticos. Muito idêntico ao que já fazemos, mas com foco na comunidade, onde todos, membros, apoiantes e simpatizantes, tem o direito de ver discutido os temas que julguem ser desígnios de bem comum. A tal necessária abertura do partido.

No fundo, seria como experienciar um ‘governo sombra’ em que os assuntos seriam levados a debate nos círculos respetivos: numa primeira fase seriam avalizados pela coordenação dos círculos, com o aval positivo, passam a debate e depois a votação pelos membros do círculo. No caso de votação favorável, seria agendado para nova discussão em assembleia geral e votação final. Aprovado, seria um desafio para a luta política, com a força que o partido tem no parlamento.

Assim pretendia, um partido virado para a comunidade, com participação popular, dando forma coerente á Declaração de Princípios Políticos do partido e sendo consequente com o primado da criação de um partido político.

Apresentei estas propostas, para discussão, em todos os órgãos que podia: no núcleo de Leiria, no círculo temático liberdade, num grupo interno, os livretários, ao Grupo Contacto e por fim em forma de moção, no último congresso da Costa da Caparica. Em nenhum destes órgãos foi aberta a discussão e o estudo desta forma. Não consegui abrir espectativas, nem suscitar interesse nestas propostas.

No entanto, ainda vou puxando este tema, no PL, a espaços, tentando criar o entusiamo para o debate/discussão. Definitivamente este não é um assunto que o partido no geral tenha interesse. Com uma exceção, a de um camarada que na espectativa de obter argumento para a inviabilização da proposta, transformada em moção, debateu comigo, via Café Livre. O único camarada que realmente pensou nela. Não o conhecia pessoalmente, mas no congresso da Costa da Caparica apresentou-se pessoalmente e disse que, após reflexão, iria votar favoravelmente a minha moção. A moção foi rejeitada em congresso.

Ao fim de quase três anos, tenho a sensação que mais nada acrescento. Não sou, nem gosto da dita carreira política.

Acabo por experienciar os defeitos que sentia existir nos partidos políticos. Uma luta patética por cargos, sem a valorização do trabalho produzido. Está instalado um grupo fechado e nada é debatido se não for oriundo desse grupo. Avaliação objetiva de eventos, grupos de trabalho e cargos é inexistente. Fica tudo no campo subjetivo. Ideal para publicidade e marketing, péssimo para trabalho político concreto, consequente. Quando apelo a que se faça uma planificação objetiva e concreta, sujeita a avaliação, a norma é a de que o grupo ou o camarada fique ou sente-se colocado em causa ou criticado. Nunca consegui suscitar o debate efetivo, sobre quase nada. Chegam a dizer-me, que nenhuma proposta minha irá ser aceite. Tinha que me moderar nas opiniões (a subserviência que mata os partidos) e depois, pertencer a um órgão qualquer…

O espaço entre esta sensação e a tentativa de desvalorização do outro é muito pequena. Será sempre mais fácil, despromover. Os cargos intermédios, os que para mim serão 'os seguidistas' ou 'os carreiristas políticos' sentem-se sempre ´ameaçados' e quando menos se espera, tentam por todos os meios a desvalorização pessoal. Sabem que tem o apoio do grande grupo e em último recurso vale a tentativa da humilhação.

Este patamar é desconfortável. Quando se pretende pela humilhação pessoal, afastar o outro. Assisto a vários camaradas desistirem e saem do partido. Não estão para isto, não é este o seu propósito. Pessoalmente, o que mais me “tira do sério” é a utilização de movimentos de libertação, como o movimento feminista em proveito próprio. Apelidar pessoas que não se conhece, de machista (como me foi dirigido), só pelo facto de ser homem e no objetivo de querer ofender e humilhar é um aproveitamento deste movimento, inaceitável. Temos atualmente, em pleno ano de 2024, mulheres que pagam com a própria vida, só por lutarem para serem livres…. Estão sujeitas a violência física, emocional e sexual. Os seus direitos e princípios básicos explanados na Declaração Universal dos Direitos humanos são violados, a luta pela igualdade de tratamento é terrível. Aos dias de hoje, cada vez mais é difícil esta luta. O pouco que faço, torna-me sensível ao respeito por estas lutas. Temos camaradas que se apropriam destes movimentos para proveito próprio, só para tentar humilhar o outro, pelo simples facto de ser homem, rogam-se ao direito de apelidar o outro de machista: inaceitável, mesmo deplorável. A apropriação de se julgarem feministas, só pelo facto de o dizerem ou irem acenar umas bandeiras é, para mim, a vergonha alheia que sinto. O mais caricato é ver o rol de camaradas que vem em defesa deste ato, sem sequer uma breve reflexão do ridículo e ofensivo (para os movimentos feministas, claro) que se sujeitaram.

Não acontece só comigo. Acontece com vários camaradas, basta que tentem ser diferentes da linha oriunda do grupo que tudo controla. Foi isto que experiencio no Livre. A minha reflexão sobre a saída do partido é ambígua. Por um lado, não estou por aqui a acrescentar nada, por outro os partidos não são de ninguém, mas de um povo. Estes movimentos coletivos geridos como se fossem sua propriedade é degradante dos movimentos políticos. A causa da péssima fama que a política usufrui são da sua (partidos) inteira responsabilidade.

O debate faz-se contra os outros, nunca em causa própria. Será mais fácil. O facto de termos um dito partido fascista no parlamento é ótimo. É ir para cima deles, deve dar a sensação de luta progressista. Mas será que é necessário um partido de esquerda progressista, ecológico, defensor de minorias, com o seu grande foco na afirmação e divulgação todos os dias que temos um partido fascista no parlamento??

Pouco fica depois para a luta pela democracia. 
Surgem eventos políticos que debatem os grandes temas, negoceia-se no parlamento ‘ganhos’ sociais, mas como tudo é sujeito ao jogo da publicidade e marketing político, acaba por se desvanecer na subjetividade da ação. Apela-se “o Livre conseguiu o passe social gratuito” ou “o Livre defende a luta palestiniana”. No concreto, na negociação e jogos políticos acabamos por elogiar políticos que defendem soluções bélicas nos conflitos internacionais, o passe social torna-se uma luta por ‘quem foi que conseguiu o dito’… É isto, o conceito de fazer política. É isto que cansa o povo. É isto que me cansa. Já não digo nada, quando no meu café da minha aldeia, se ouve a frase ‘os políticos são todos iguais, andam todos ao mesmo’. Passo a ficar calado. Egos e mais egos, umbigos a brilhar que rapidamente de transforma numa bolha fechada, perdendo o contato com o povo, com os seus problemas e a respetiva descontextualização da realidade. Isto num partido com dez anos. Depressa se perde a inocência da luta progressista.

Para 2025 vou continuar a estar fartinho de pessoas que tanto dão aos partidos e tão pouco ao bem comum.


Opção da esquerda III

 Para quando um discurso claro da esquerda? O governo tem a incumbência da gestão do bem público, do bem comum: saúde, educação, habitação… ...